Desejara silêncio desde que acordara. Olhar para o espelho logo após três horas noturnas de sono não vinha sendo uma boa opção. A rotina, que se instaurava paulatinamente, acomodava, e não deixava brechas para que se pudesse mudar.
Isso ainda iria lhe matar, sabia. Mas o que se podia fazer? Era o que respondia sempre que olhava o despertador berrar pela milésima vez ao lado de sua cama e socá-lo ao ponto de desmontá-lo todas as manhãs. Também era rotineiro ter de consertá-lo. A habilidade de fazê-lo cada vez mais rápido, junto à mente matinalmente descoordenada, lhe fazia surgir pensamentos cada vez mais complexos e absurdos, como abrir uma pequena oficina de aparelhos eletrônicos ao lado de casa. Só não ria da idéia, que também se repetia, porque mover os músculos após tão pouco tempo de descanso era desperdício de energia.
E ia se banhar. Talvez a hora mais interessante do dia. Podia sentir como se a limpeza purificasse seu corpo e lhe renovasse parte das forças que escorriam pelo ralo, pelo vaso, ou por seus atos, todos os dias. Não importava quantas vezes tomasse banho, a sensação seria sempre a mesma. E só desligava o chuveiro caso a água pudesse escorrer por suas pernas e sutis curvas de maneira refrescante e livre. Confirmava isso como um triunfo ao se vestir: a roupa deveria deslizar pelo seu corpo como se fizesse parte dele. Caso contrário, voltaria ao banho até que fosse possível senti-lo. Esse era o motivo pelo qual acordava sempre mais cedo. Era simplesmente necessário cumprir esse ritual para que o dia pudesse ser considerado bom independente do seu desfecho. Um dia limpo, pelo menos.
Sua limpeza esmiuçada era válida por dois dias. No terceiro, todo o ritual era minuciosamente repetido. E durante a data de validade o banho não era abolido, mas abreviado.
Sempre.
Tentava cuidar de sua alimentação. Apesar de ter aprendido com alguma mulher de sua família que o café da manhã é a refeição mais importante do dia, fazia sem muitas cerimônias. Procurava comer o que demandava menos tempo e assim mesmo fosse capaz de acalmar o estômago. Gostava de cereais, frutas, e, quando imaginava que o dia seria longo, comia pão. Preferia sucos a café, ou chocolate, mas eventualmente os escolhia, tentando fugir da rotina, mas sempre os preparando da mesma maneira.
E por mais que acordasse cedo e condensasse suas atividades matinais, sempre corria para o trabalho. Adorava dirigir, era o segundo melhor momento do dia. Requeria sua atenção. Não tinha problemas com o trânsito, poderia ganhar uma medalha por nunca ter causado ou sofrido um acidente, mesmo com os imutáveis atrasos, que se repetiam desde o seu ginásio. Chegava no horário, mas sempre correu para que isso acontecesse.
Sentia-se livre sempre que passava pela rua levemente banhada de sol e com árvores falantes pelos ventos. Abaixava o vidro do motorista para que sentisse o cheiro e a brisa. Fechava logo depois. Estava indo tão rápido que o vento lhe incomodava, e quando pensava em ligar o som do carro, já estava no trabalho. Geralmente sem engarrafamentos, era bem cedo. Teria direito por mais alguma medalha pela pontualidade e competência, mas seu ânimo não lhe permitiria fazer com que o braço se movesse para isso, pensava. E ria. Procurava se recompor rapidamente - seu sorriso era questão de segundos, e a transição para o estado comum de seu rosto não era suave. O seu desânimo paradoxalmente transmitia seriedade, às vezes confundida com mau humor, ou brutalidade. Na verdade, apenas era uma pessoa incapaz de se mover, ou de se interessar por coisas que não coubessem em sua rotina, por mais que ansiasse por um acontecimento inusitado. Por mais que quisesse um dia chegar em sua sala, chamar o Ivan, e contá-lo a respeito de algo único. Beber café sem açúcar, e rir, e ouvi-lo. Ou sair para almoçar com Anya. Mas não sabia o que era almoço há mais de seis meses. E ter por perto, apenas por uma questão político-hierárquica, as pessoas com as quais gostaria de se associar, já não lhe incomodava, já se tornara comum. Às vezes era até bom, pensava. Relacionar-se com pessoas era mais perigoso do que com livros técnicos ou arquivos periciais. E não, não era parte de sua rotina. Incabível para alguém incapaz de dormir mais do que três horas diárias. Precisava apenas sentar-se, ligar o computador e retomar a busca que iniciara no dia anterior. Vlasi, seu único superior, iria chegar logo e lhe enviaria, juntamente com Ivan, para o próximo foco do caso em que trabalhavam. Sabia exatamente em quais minutos quebrados chamariam seu nome.
─ Olga!
Esperava um bom dia, pelo menos. Mas isso não lhe assustara. Num ambiente onde a rotina não deveria existir devido à dinâmica, Olga tentara (e até conseguira) instaurar sua estabilidade, e já era capaz de considerar a falta de cordialidade do seu superior como comum. Só que a voz, que deveria ser rouca e máscula como a de Vlasi, era doce e parecia alegre.
─ Feliz aniversário!
Era Anya. Quem mais poderia lembrar do seu aniversário? Era sempre Anya que se recordava, e era sempre Anya que trazia o bolo de chocolate da padaria mais próxima. Nem ela mesma fazia questão de lembrar do próprio aniversário, já que o fato de alguém (Anya) lhe preparar algo "novo" lhe era sutilmente excitante, atiçava aquele leve desejo de mudança, que nunca lhe cabia, mas que desejava.
─ Mas dessa vez é de morango.
Sorriu com os lábios sujos. Por quantos anos mais esse sabor se repetiria? Não sabia. E não se importava. Seria sempre diferente, afinal. E já era tempo de levá-la para um almoço, e tomar café sem açucar com Ivan.
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3 anos atrás

